INFÂNCIA NA BERLINDA - 'Quem escolhe é o adulto'

Na véspera do Dia das Crianças, psicoterapeuta alerta que elas devem ser foco de cuidado, mas não de poder; e ensina que os pequenos precisam se frustrar

 
É preciso preservar o espaço das brincadeiras, não sufocando as crianças com tantas obrigações: fantasia ajuda a desenvolver capacidades para lidar com o mundo.

Elas exercem um enorme poder dentro das famílias, mas não recebem todo o cuidado que merecem. Por isso, as crianças ocupam um lugar paradoxal dentro da sociedade atual: ao mesmo tempo em que são as protagonistas das relações familiares, não são tratadas com a prioridade necessária por parte dos adultos que as cercam. 
A psicoterapeuta Eliana Louvison, de Londrina, explica que, por muito tempo, o protagonista da família foi o pai. Depois, por um período curto, a mãe foi galgada à função de "rainha do lar". Hoje, a protagonista é a criança, o que por um lado ela considera um avanço. "Nunca antes a infância foi tão bem cuidada, tanto física como afetivamente. Isso é legal, pois gera pessoas maravilhosas no campo da criatividade, das singularidades e de ter liberdade para ser quem é", avalia. 
Por outro lado, alerta que essa mudança de configuração tem uma faceta preocupante. "Ocupar o lugar de protagonista implica em ter poder. O problema é que alguns pais e adultos estão demandando da criança um exercício de poder que ela não sustenta, pois não tem equipamentos cognitivos e nem psíquicos para isso", afirma. E dá o exemplo de famílias nas quais os filhos fazem escolhas importantes como a escola onde vão estudar, mesmo sem ter juízo crítico para tanto. 
"Quando damos à criança o poder de escolha que ela não tem competência para fazer, é terrível, pois vira uma fonte de estresse", pontua. Além disso, essa criança vai acreditar que é muito poderosa. "Mas em algum momento a ficha vai cair, ela vai perceber que é falível e a experiência será devastadora", alerta, reforçando que a criança como protagonista da família tem que ser o foco do cuidado, e não do poder.
Eliana remonta ao passado para explicar o cenário atual da infância. "Todos que ocuparam o lugar de protagonista abusaram do poder. Tivemos pais violentos, agressivos e dominadores, assim como mães possessivas de um jeito nocivo. E hoje temos crianças tiranas", avalia. 
A solução para esse dilema está dentro da própria família, que deve se organizar para que todos exerçam diferentes poderes, guardadas as próprias competências. É o que ela chama de "lugares subjetivos". "São as funções que devem ser exercidas por cada um da família", afirma. 
Um dos adultos – seja pai ou mãe – precisa ter a função de cuidar, o que historicamente tem sido atribuído à mãe. O outro – normalmente, mas não necessariamente o pai – faz a ponte simbólica entre o mundo doméstico e o "mundo de fora". "A função da criança é pedir cuidado, limite, atenção, ela não tem que dar nada. Mas isso são funções subjetivas, que ocorrem dentro de uma economia psíquica da família", elabora. 

 

Consumismo

Dado que cada um na família precisa ocupar sua função, Eliana pondera que o modelo acaba sendo útil para resolver a maior parte dos dilemas contemporâneos em relação à criação dos filhos. O consumismo desenfreado, por exemplo, considerado um dos males da sociedade atual, poderia ser equilibrado com o exercício dos diferentes poderes familiares. "Cabe à mãe cuidadora – seja ela quem for – avaliar se o bem a ser consumido é bom para o filho. O pai racional vai dizer se pode ou não pode. Não é prerrogativa da criança, que não tem capacidade de saber o que é melhor para ela nas questões que transcendem o próprio corpo. Claro que a criança tem capacidade de saber se gosta de abobrinha ou chuchu, mas ela não sabe quantas bonecas é bom ter, quantas horas deve ficar no tablet, quais sites pode acessar pela internet. Quem escolhe é o adulto", avisa. 
A psicoterapeuta ensina que as crianças precisam se frustrar, mas que este sentimento, em um contexto inadequado, causa apenas sofrimento. "Se a criança quer ver televisão e a mãe manda tomar banho, o motivo para o filho entrar no chuveiro é simplesmente a vontade da mãe. A frustração de quereres é boa, formativa, porque ensina a criança a levar em conta que não é o centro do universo, que não pode tudo. O desejo de que a criança esteja no banho naquele horário, ao invés de ver TV, vai frustrá-la de forma positiva", avalia, lembrando que tomar banho ao invés de ver TV nunca será o desejo da criança. 
"É o desejo da mãe ou do pai que impõe o limite", ensina ela, que não acredita no castigo como forma de educação. "Retirar um objeto que ela goste, por exemplo, só gera sofrimento, é abuso de poder. Frustrar significa cortar um capricho sem ferir a criança", acredita. 
Para Eliana, a solução para todos estes dilemas está na priorização da infância. "Dá-se o lugar de protagonista para a criança, mas os adultos não fazem o que é preciso: colocá-la como prioridade. A criança pode tudo mas não significa nada. Se é protagonista, tem que ser tratada como 'primadona'", defende. 
Por fim, Eliana lembra os adultos sobre a necessidade de preservar, na infância, o lugar de brincar. "Muitas crianças são sufocadas com atividades, obrigações e perdem o espaço das brincadeiras. Mas são nestes momentos que elaboram e constituem a própria subjetividade", ensina. Sem fantasia, o risco é impedir o desenvolvimento dos equipamentos necessários para lidar com o mundo na vida adulta. "A questão é que vamos precisar desta capacidade de fantasiar. Afinal, se formos adultos apenas objetivos e realistas, não vamos dar conta.", avisa.

Data: 27/07/2017

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